É o dispensacionalismo a teologia do Diabo?

Confesso que, como dispensacionalista, preocupa-me ver o que tem sido divulgado na Internet, em português, sobre o dispensacionalismo. A impressão transmitida é a de que o dispensacionalismo, como visão escatológica e hermenêutica, se constitui numa teologia de ignorantes, diabólica e heterodoxa. Francamente, palavras e insinuações fortes e ofensivas, em nada contribuem para um diálogo hermenêutico e teológico produtivo. Na verdade, quando faltam argumentos, há a necessidade de uso de palavras que desprezem a perspectiva oposta.

Diante disso, começo a divulgar neste blog alguns artigos que mostrarão tanto a plausibilidade do dispensacionalismo, como a dignidade que tal sistema possui, ao menos para ser ouvido e respeitado.

Vale à pena, então, como pontapé inicial, citar teólogos respeitados no meio prostestante-evangélico, que adotaram o dispensacionalismo como sua visão pessoal.

Charles C. Ryrie, editor da Bíblia Anotada1 e autor de Basic Theology, traduzido em português sob o título semelhante de Teologia Básica2, foi professor durantes muitos anos na área de teologia sistemática do Dallas Theological Seminary, é dispensacionalista declarado e autor de livros que expõem o dispensacionalismo, bem como o defendem, enquanto sistema teológico.3 Ele escreve, em Teologia Básica, o seguinte: “Sou um pré-milenista e essa será a perspectiva pela qual analisarei a escatologia nesta parte do livro”.4 Também, diz:

Novamente voltamos nossa atenção para a questão da ocupação incompleta da terra. Embora Israel, como nação, tenha ocupado parte da Terra Prometida pela aliança, ela jamais foi ocupada totalmente conforme o prometido. Portanto, deve haver algum momento no futuro em que Israel o fará. Para os pré-milenistas, isso ocorrerá no reino do milênio. Logo, a aliança abraâmica fortalece a escatologia pré-milenista.5

Ao falar sobre a igreja, Ryrie é bem direto ao declarar que “A igreja é distinta de Israel e não teve início até o dia de Pentecostes, portanto, não existia durante o Antigo Testamento”.6

Outro importante teólogo dispensacionalista é o Dr. Thomas L Constable, professor de Exposição Bíblica do Dallas Theological Seminary, autor de Nelson’s New Testament Survey : discovering the essence, background & meaning about every New Testament book, seus comentários bíblicos podem ser acessados no sitehttp://www.soniclight.com/, na seção Study Notes e possui alguns trechos traduzidos e disponibilizados em português por http://www.monergismo.com/.

Em seu comentário de Gálatas, no texto de 6.16, ele declara o seguinte:

Ele desejava isso, especialmente, para o “Israel de Deus”. Este título incomum se refere a judeus salvos. Descreve um segundo grupo no verso, não o mesmo grupo. Perceba a repetição de “sobre” que faz tal distinção. Também, “Israel” sempre indica judeus de sangue nas demais ocorrências no Novo Testamento (65 vezes). Além do mais, seria natural para Paulo, escolher judeus cristãos para uma menção especial, desde que nesta epístola ele quase soou anti-semita. Assim, é melhor entender esta frase no seu uso normal do que como a única designação para a igreja como um todo, como muitos não dispensacionalistas fazem.7

Depois deste comentário, Constable cita Peter Richardson:

Uma forte confirmação desta posição [i.e., que “Israel” indica judeus no Novo Testamento] vem da total ausência de uma identificação da Igreja com Israel até A.D. 160; e, também, da total ausência, até então, do termo “Israel de Deus” para descrever a Igreja.8

Para uma clara perspectiva da posição escatológica dispensacionalista de Constable, basta ler seu comentário sobre Apocalipse9, no qual entende o milênio como literal e os 144.000 israelitas no capítulo 7, também.

De início, estes dois teólogos dispensacionalistas respeitados no meio evangélico-protestante, revelam o peso intelectual e ortodoxo que o sistema possui. Nos próximos artigos, pretendo falar sobre Roy B. Zuck, Lewis S. Chafer, Eugene Merril, Allen Ross, John MacArthur, dentre outros grandes teólogos dispensacionalistas.

Por fim, cabe uma pergunta importante. Se o dispensacionalismo é tão perigoso e prejudicial, como alguns reformados dizem ser, por que o Dr. Heber Carlos de Campos, ministro presbiteriano, professor do departamento de Sistemática do Centro de Pós-Graduação Andrew Jumper, traduziria para o português a maior obra sistemática do dispensacionalismo, escrita por Lewis Sperry Chafer?10

Portanto, parece que o caminho mais excelente (1 Co 12.31) nessa discussão é o respeito e reflexão, e não o uso de recursos retóricos que ludibriam, mas não produzem o pensar sadio. Assim, sugiro que aliancistas busquem conhecer melhor o dispensacionalismo, especialmente aquilo que vem sendo desenvolvido nos dias hodiernos. As obras citadas neste artigo são de grande valia para isso.

Uma outra sugestão é a leitura de artigos sobre escatologia e hermenêutica que são publicados no site http://www.bible.org/ e no periódico Bibliotheca Sacra, editado pelo Dallas Theological Seminary.

1 RYRIE, Charles Caldwell (ed.). A Bíblia Anotada. São Paulo: Mundo Cristão, 1991.
2 RYRIE, Charles Caldwell. Teologia Básica: ao alcance de todos. São Paulo: Mundo Cristão, 2004.
3 Dois destes livros são Dispensacionalism Today e The Basis of Premillennial Faith.
4 Op cit. p. 511.
5 Idem. p. 531.
6 Idem. p. 461.
7 CONSTABLE, Thomas L. Notes on Galatians. [s.l.], 2005. p. 71-72. (Tradução do autor).
8 Richardson, Peter. Israel in the Apostolic Church. Society for New Testament
monograph series. Cambridge: Cambridge University Press, 1969. Apud CONSTABLE, Thomas L. Notes on Galatians. [s.l.], 2005. p. 72. (Tradução do autor).
9 CONSTABLE, Thomas L. Notes on Revelation. [s.l.], 2007.
10 CHAFER, Lewis S. Teologia Sistemática. São Paulo: Hagnos, 2003.


Comentários

4 respostas para “É o dispensacionalismo a teologia do Diabo?”

  1. Há alguns anos, li um artigo que dizia que o dispensacionalismo falhava com as doze tribos… Sim… No apocalipse, as mesmas são citadas, naquela parte que fala sobre os 144 mil israelitas…
    Enfim…
    Infelizmente não guardei o artigo. Vou ver se procuro de novo, pois o li aqui na net.

    Abraços,

  2. Avatar de Antonio Carlos
    Antonio Carlos

    Muito boa sua iniciativa. O aliancismo está em alta, graças há algumas figurinhas carimbadas midiáticas, que chegam mesmo a querer satirizar o Dispensacionalismo. Mas, a postura hermenêutica aliancista, tem muitas lacunas que eles procuram esconder embaixo do tapete, como por exemplo, as muitas alegorias para camuflar profecias ainda não cumpridas, que eles insistem em já aconteceram. Valeu.

  3. Sou dispensacionalista, gostei muito deste artigo e sugiro também a leitura desse artigo abaixo:

    http://www.chamada.com.br/mensagens/calvinismo_dispensacionalismo.html

    A paz de Cristo irmãos!

  4. Avatar de Daniel Supimpa
    Daniel Supimpa

    Reconheço que existe muita satirização que tende ao dualismo, como quase toda discussão dentro da igreja Cristã, o que realmente é lamentável. Tenho bons amigos dispensacionalistas. Contudo, ainda assim, é um sistema que historicamente deixa muitas dúvidas, espeicalmente por ser uma doutrina relativamente recente (a estruturação do dispensacionalismo classico tem menos de 200 anos). Não sei há quanto tempo este texto foi escrito, mas creio que existem algumas questões históricas importantes como:
    (1) Qual a defesa que o próprio Dispensacionalismo daria pra sua recente “organização”? Como chave hermenêutica, isso não implicaria que toda a tradição cristã de 1800 anos estava equivocada ou limitada?
    (2) Por que o Dispensacionalismo teve uma aceitação limitada a cerca de 20 milhões de adeptos (entre 2,5 bilhões de Cristãos, sendo assim menos de 1%)? Por que ele ganha força apenas após o Holocausto, e particularmente nos EUA? Do ponto de vista histórico, creio que é necessário uma resposta coerente.
    (3) Quais as características dos desdobramentos hodiernos do Dispensacionalismo, como o Dispensacionalismo Progressivo de Darrel Bock? É importante entender como o próprio Dispensacionalismo se “movimentou” dentro do mundo dos estudiosos da área bíblica. Aliás, por que a concentração em Seminários do Sul dos EUA, como Dallas?
    (4) Se de alguma forma existe alguma forma de “privilégio” ou posição de maior participação de Israel no plano futuro de Deus, por que então os cristãos atuais nãos deveriam se tornar prosélitos judeus e participar da comunidade do Milênio? Ou só valeria para judeus de sangue judeu? E mesmo que houvesse a possibilidade de ser aceito na comunidade de Israel, neste caso não cairíamos em alguma forma de teologia judaizante como a combatida por Paulo na carta aos Gálatas?

    Apenas uma questão final com o argumento do texto: A tradução da obra de Lewis Chafer por Heber Carlos de Campos não prova nada. Como teólogo sistemático, o Pr. Héber se interessa pelo que foi escrito em sua área de estudo, concorde ele ou não. E como tradutor, ele serve uma publicadora. Basta o exemplo do Pr. Carlos Osvaldo Pinto, que traduziu diversos livros do Eugene Peterson (e.g. “A Vocação Espiritual do Pastor”) que, embora muito edificantes e bem escritos, destoavam bastante da sua hermenêutica bíblica, conforme comentários do próprio Prof. Carlos.

    Pergunto realmente por curiosidade própria e pq imagino que receberei uma resposta bem embasada por aqui.

    Abs

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