Por Michael Lawrence

Frequentemente, nós justificamos nossa atividade sexual sobre a base do nível de comprometimento no relacionamento. Quanto maior o nível de comprometimento no relacionamento, mais sexualmente envolvidos nós nos permitimos estar. Uma das coisas mais comuns que ouço no aconselhamento pré-matrimonial são casais dizendo que eles se abstiveram da atividade sexual até noivarem. Neste ponto, toda a restrição interna que eles sentiram, de repente desaparece e, agora, se encontram lutando – algumas vezes falhando – para permanecerem fora da cama.

Será que temos compreendido erradamente o padrão de Deus? Comprometimento crescente legitima níveis crescentes de intimidade sexual fora do casamento? Aqui é exatamente onde a teologia do sexo se torna importante e uma teologia do sexo requer bem mais do que uma lista sobre o que fazer e o que não fazer. Conforme isso é exposto, sexo não é uma recompensa arbitrária que você recebe por casar-se, e intimidade sexual não está ligada a uma escala crescente de compromisso. Antes, sexo possui um significado teológico dado por Deus e propósito que transcende “minha” experiência e opinião acerca disso.

Conforme o primeiro capítulo do livro de Gênesis, Deus criou homem e mulher à sua própria imagem. “Criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou” (Gn 1.27). O que isso significa é explicado nos versos seguintes. Como Deus, homem e mulher devem exercer domínio sobre a terra. Eles devem ser criativos enquanto promovem a ordem e produtividade da criação de Deus. Devem, também, viver num relacionamento frutífero um com o outro. Isso é uma clara implicação do mandamento de Deus “Sejam férteis e multipliquem-se” (Gn 1.28). A questão fica ainda mais explícita em Gênesis 2. No meio da criação perfeita de Deus, ele coloca um jardim, literalmente um paraíso (vv. 1-14). Logo, Deus coloca o homem que Ele fez neste paraíso dos paraísos e lhe dá uma tarefa (v. 15). Ordena ao homem que cuide e proteja este jardim. Quase imediatamente depois que dá ao homem esse chamado básico para a sua vida, Deus declara, pela primeira vez, que há algo que não é bom: não é bom que o homem esteja só (v. 18). Então, Deus cria a mulher e a traz ao homem. Este não está mais só. Adão observa Eva e diz: “Essa é osso dos meus ossos e carne da minha carne” (Gn 2.23). Então, percebemos que somos testemunhas do primeiro casamento, quando Adão e Eva se unem e se tornam uma só carne (v. 24).

A Bíblia nos ensina que casamento é uma aliança que estabelece um relacionamento entre um homem e uma mulher que não possuem obrigações naturais um com o outro, com um pai e uma criança possuem, mas que voluntariamente assumem obrigações permanentes e compromissos de um relacionamento familiar. Antes que dois indivíduos casem, eles não eram familiares; não eram uma só carne. Mas no casamento, estes dois indivíduos se tornam familiares numa união tão próxima, íntima e permanente que a única linguagem para isso é a linguagem da família, a linguagem de carne e sangue. Nossa capacidade para estabelecer este tipo de relacionamento de aliança é parte do que significa ser criado à imagem de Deus. Exatamente como Cristo é unido ao seu povo de tal modo que Ele se torna a cabeça e a Igreja o Seu corpo (Ef 5.23, 30), assim Deus nos criou para refletir Sua imagem enquanto nos relacionamos com uma outra pessoa numa união pactual de uma só carne. Tornar-se uma só carne não significa tornar-se uma só pessoa. Um marido e uma esposa permanecem sendo pessoas distintas. Porém, isso significa sim que como resultado da aliança do casamento, o marido agora se relaciona com sua esposa como se ela fosse parte do seu próprio corpo, cuidando dela e a protegendo, exatamente como cuida e protege a si mesmo.

Agora, se casamento é uma aliança, então tal aliança deve ter um sinal, algo que torna visível a realidade invisível da união de uma só carne. Este é o modo como todas a alianças funcionam na Bíblia. Quando Deus fez uma aliança com toda a criação de não destruir o mundo, novamente, por meio do dilúvio, ele colocou o arco-íris como um sinal no céu. Quando Deus faz a aliança com pecadores arrependidos na Nova Aliança, ele nos dá o sinal do batismo, no qual o visível retrata a realidade invisível de nosso ser sepultado com Cristo, sendo purificado do pecado, e ressuscitando para uma novidade de vida com Cristo. E da mesma forma, funciona com a aliança do casamento. Um vez casado, um homem não se relaciona com sua mulher com se ela fosse sua irmã ou mãe – pessoas com as quais você não tem relação sexual. Mas ele se relaciona com sua esposa, unindo-se a ela num relacionamento de uma só carne de mútuo amor, lealdade e intimidade. O sinal desta aliança sem par, é o ato físico de tornar-se uma só carne no intercurso sexual.

O que isso significa é que a intimidade e prazer do sexo não é uma recompensa do casamento que recebemos por nos casarmos. Seria o mesmo, dizer que o batismo é uma recompensa que recebemos por nos tornarmos cristãos. Não, sexo é o sinal da própria aliança do casamento. E se envolver sexualmente é uma chamado de Deus como testemunho de que nos mantemos responsáveis por nosso compromisso de aliança no casamento.

Traduzido de Sex and the Supremacy of Christ, p. 136-138
Tradução de Tiago Abdalla


Comentários

3 respostas para “Teologia do sexo”

  1. Avatar de Claudia
    Claudia

    Creio firmemente no sexo como uma aliança e para mim isso é mais do que claro na bíblia, o resto é dar brecha para a carne.
    Gostaria de relatar a realidade que me assusta, conheço homens cristãos, homens que estudam a bíblia, Teólogos, Pós-graduados, Mestrandos que decidiram estabelecer os seus próprios padrões de relacionamento com as mulheres baseados na acomodação de vossas fraquezas sexuais, e antes de se comprometerem em um namoro ou casamento estabelecem e influenciam-nas na necessidade de conversas profundamente sexuais (detalhes, preferencias de posições, fotos para teste, masturbação diária), é um teste para ver se realmente o sexo vai ser bom com essa garota. Já vi cristãos apresentando planejamento financeiro, compra de casa e terreno antes mesmo de assumir um namoro. No final estão solteiros, ou seja, usam testam e depois jogam fora. Eles têm certeza que as querem sexualmente, mas não podem garantir um compromisso e a desculpa dessa bagunça toda é – eu só penso diferente.
    Sou muito consciente que tempos piores virão e isso já vem acontecendo na igreja primitiva, mas gostaria de uma opinião bíblica sobre esta realidade que confunde a minha cabeça.

    1. Claudia, obrigado pelo comentário.

      Eu entendo a pergunta que confunde a sua cabeça: “como crentes podem fazer isso?” Para lhe ajudar na solução da confusão, considere também essa pergunta: “eles são crentes?” Seguramente essas não são as atitudes desejadas de alguém que seja guiado pelo Espírito (Gl 5.18). Por outro lado, eu não posso negar a existência de filhos de Deus, separados por Ele, por causa de Sua graça e por meio da fé, que agem com depravação (1Co 2-3). Tais irmãos, como nós, estão num processo cujo fim aguarda o dia de Cristo Jesus (Fp 1.6). Seguramente, Claudia, se eles forem filhos de Deus, experimentarão da Sua disciplina (Hb 12).

      Precisamos ter em mente que crentes continuam precisando de Cristo depois de nascerem de novo. Ainda que nossa segurança eterna seja garantida pontualmente, nossa santificação é um processo progressivo, que somente terminar depois que tivermos na presença de Deus.

      Por fim, e essa não é uma opinião bíblica, mas minha leitura do nosso tempo. Muitas pessoas são como o público que acompanhava Jesus: “porque vira os sinais miraculosos que ele tinha realizado. (…) A verdade é que vocês estão me procurando, não porque viram os sinais miraculosos, mas porque comeram os pães e ficaram satisfeitos (Jo 6.2,26). O povo tem se confundido, Cláudia, “nem só de pão viverá o homem” (Lc 4.4). Apesar da frase ser bem clara, tem gente comendo o pão de trigo e achando que isso é suficiente.

      1. Avatar de Claudia
        Claudia

        Grata!

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