Pastores, psicologia e psicanálise

Por Emídio de Souza Viana

Título original: “Pastores Psicanalistas. Essa não!”

“Portanto, ó pastores, ouvi a Palavra do Senhor: Vivo eu, diz o Senhor Deus, que, porquanto as minhas ovelhas foram entregues à rapina… ” Ezequiel 34:7-8b

“Nestes últimos anos, cresceu em vários setores humanos o interesse pela psicologia. Essa deixou de ser uma disciplina especulativa, ensinada em cursos restritos das faculdades de filosofia, para penetrar em quase todos os currículos, nos serviços de admissão ou seleção de profissional, da indústria e do comércio, do exército, da marinha da aeronáutica civil e militar.”[1]

Essa citação foi extraída de um livro escrito há quase cinquenta anos. O avanço da psicologia é tão alarmante que ela se agregou em todos os segmentos da sociedade, chegando ao ponto de seduzir pastores e líderes. A psicologia está sendo propalada ao povo de Deus, com o propósito atroz de conduzir o crente ao descrédito na plena suficiência das Escrituras. A penetração no meio evangélico se destaca nas mais diversificadas formas: através dos púlpitos, com mensagens psicologizadas, e no aconselhamento “pastoral”, onde a Bíblia é colocada em pé de igualdade com a psicologia. Hoje, creio que 90% dos livros de aconselhamento cristão são integracionistas, isto é, tentam conciliar Bíblia e psicologia. Outro aspecto desse avanço se apresenta na literatura didática. Tenho em minha biblioteca uma revista de escola bíblica dominical, onde o autor é pastor e psicólogo. Ele diz: “O presente estudo, à partir da Bíblia e da psicologia tenta fornecer respostas à questão.”[2] Veja que a Palavra de Deus foi acolhida no mesmo nível da psicologia. A penetração não para por aí, conheço casos em que Igrejas proporcionaram seminários para seus membros, mostrando o valor da psicologia na vida cristã. Não tenho dúvidas de que esse fascínio que muitos líderes demonstram pela psicologia começou com a matéria oferecida no curso de teologia. Estamos diante de um problema gravíssimo e muitos se deixaram levar por esse engano maligno, outros não enxergam esse perigo.

Isto tudo demonstra que pastores e líderes estão procurando respostas para o problema humano e em particular de suas ovelhas, fora da Palavra de Deus. A revista Veja de 20 de setembro do ano 2000 traz um artigo intitulado “A Bíblia no Divã”, mostrando que é cada vez maior o número de pastores que têm procurado os cursos de formação rápida de psicanálise tentando conciliar Freud com o Senhor Jesus Cristo. A Sociedade Psicanalítica Ortodoxa do Brasil (SPOB), que desde 1996 ofereceu os primeiros cursos de psicanálise, já entregou diversos certificados de conclusão a muitos pastores. Trata-se de uma impossível tarefa, pois é grande a distância entre o conceito bíblico do pecado e as teorias freudianas da psicanálise. Fico a questionar qual o propósito desses pastores. Será que querem aprender como lidar com o ser humano em suas sucessivas etapas de desenvolvimento? Ou querem aprender como ajudar pessoas no relacionamento interpessoal? Ou pretendem psicanalizar? Ou acham que através da psicanálise eles serão habilitados para a tarefa pastoral do aconselhamento? Em suma, creio que estão procurando entender o ser humano e suas angústias. Talvez acham que a Bíblia tem pouco a fornecer sobre a constituição moral, ética e espiritual do homem, ou que, talvez, Deus deixou com os humanistas parte de tudo que precisamos para termos um vida equilibrada, cheia de paz, feliz e segura. Isso demanda o quão raso é o conhecimento e a aplicação da teologia bíblica em nosso meio.

“Espantai-vos disto, ó céus, e horrorizai-vos! Ficai verdadeiramente desolados, diz o Senhor. Porque o meu povo fez duas maldades: a mim me deixaram, o manancial de águas vivas, e cavaram cisternas rotas, que não retêm águas” Jeremias 2:12-13.

 

É triste ver que, no meio de pastores que são chamados de homens de Deus, os mesmos O neguem através dessa busca tão funesta ao meio humanista que destrona o Soberano Deus. Essa busca mostra o quão desqualificados são para uma tarefa tão nobre que é o aconselhamento bíblico. A fonte do autêntico conselheiro bíblico é imensurável, rica, inesgotável, incomparável, insubstituível, imprescindível, inequívoca, indiscutível, infalível, etc: A Bíblia, a Santa Palavra de Deus. O pastor não pode ficar no campo da superficialidade, ou trocando a Bíblia por recursos desprovidos de Deus. A conseqüência inevitável é a digressão do rebanho com raquitismo espiritual gerando muita infidelidade a Deus.

 

Amados colegas, somos nós que fomos chamados por Deus, e fomos preparados nas Escrituras Sagradas para falarmos a nossas ovelhas “Assim diz o Senhor”. Somos nós que temos as respostas bíblicas para as indagações e angústias humanas, tais como:

1- O que é a espécie humana?
2- Como o homem pode se relacionar com Deus?
3- Qual é a verdade que dá sentido à vida?
4- Por que nasci?
5- Por que vou viver?
6- Por que vou morrer?
7- Como posso ser livre da penalidade do pecado?
8- Como posso ter uma vida de paz e felicidade?
9- Como vencer a ansiedade e as angústias da alma? Etc.

A psicologia, com suas mais variadas técnicas e teorias, é definida pela maioria dos psicólogos, como “ciência do comportamento”. O homem busca estudar a natureza humana tentando encontrar respostas que temos na Palavra Santa do nosso Deus, que é: “O nosso padrão eficiente, suficiente, infalível, inerrante e revestido de autoridade.”[3] A Bíblia como a pura Palavra de Deus é o padrão perfeito para julgar nossas vidas e avaliar qualquer comportamento humano! Talvez quem já aderiu ao conhecimento humanista para usar em seu ministério diga: “eu não uso todos os métodos da psicoterapia”. Eu pergunto: Como unir dois sistemas rivais e irreconciliáveis? Sistemas que contemplam o pecado e a depravação humana em prismas diferentes? A felicidade do ponto de vista da psicanálise é totalmente avesso à Palavra de Deus. No livro “Técnica de Psicanálise”, de Miller de Paiva, nos é apresentado o conceito de felicidade: “A felicidade é, portanto, proporcionalmente inversa ao sentimento de culpa: quanto mais o indivíduo destilar as suas culpas, mais feliz ele se tornará (digo destilar, deixar cair lentamente, eliminando impurezas que são os sentimentos de culposos originários…”[4] E ele, vai mais adiante dizendo que, ter felicidade é a combinação simultânea entre o mundo interno e o externo. É essa a definição bíblica de felicidade? Olhem o que nos diz a Palavra de Deus: “…Se alguém tem sede, venha a mim, e beba. Quem crê em mim, como diz a Escritura, rios de água viva correrão do seu ventre” Jo 7:37b e 38. Felicidade é ter Jesus como salvador e Senhor da vida. O conceito de culpa para a psicologia é : “…culpa refere-se ao sentimento que a pessoa experimenta de ter violado algum princípio”. Para a Bíblia, o conceito de culpa está diretamente ligado ao pecado. Os que usam do integracionismo estão enganados e enganando a muitos. Qual a base para a aprovação do nosso Deus a essa suposta “fusão”? Nenhuma! Qual a base para condenarmos tal fusão? A Palavra de Deus. Isso me faz lembrar das perguntas proferidas pelo profeta Amós em seu sermão dirigido a Israel, mostrando como o povo estava digressivo da fé, totalmente afastado de Deus “Porventura andarão dois juntos, se não estiverem em acordo?” Amós 3:3. Não podemos colocar laços onde não existem!

Freud, em seu livro “O Futuro de uma Ilusão”, deixa claro que as doutrinas cristãs não passavam de delírios da massa desamparada. Para o crente fundamentalista, que crê na suficiência das Escrituras, estas são a base de toda nossa fé e prática. Formam o conjunto de preceitos, normas e princípios que regem nossas vidas “Lâmpada para os meus pés é a tua Palavra, e luz para o meu caminho” Salmos 119:105.

Quero deixar algo para reflexão dos colegas. Creio ser de fundamental importância que os pastores busquem aprofundamento bíblico. Bacharelado, mestrado, cursos de capacitação ministerial etc. O conhecer nosso Deus e a sua Palavra não é algo limitado, “E, se alguém cuida saber alguma coisa, ainda não sabe como convém saber” 1Coríntios 8:2. Fica como sugestão na área de aconselhamento o curso de autoconfrontação bíblica.[5] Seu livro texto tem como única fonte a Palavra de Deus. Isto basta! Não procure ajudar suas ovelhas com teorias humanistas, quando você tem a pura expressão da vontade soberana do nosso Deus através da sua Palavra. A ovelha precisa de pastor e não de psicanalista.

 

[1] Princípios de Psicologia, Garcia Alves, Fundação Getúlho Vargas, R. de Janeiro, 1964.

[2] Vida & Plenitude, Nunes Macéia, Ed. Horizontal, R. de Janeiro.

[3] MacArthur, John F. Como Obter o Máximo da Palavra de Deus, Cultura Cristã. Pg 92.

[4] Miller de Paiva Luiz, Técnicas de Psicanálise, Imago Editora. Pg. 23.

[5] O livro de autoconfrontação pode ser adquirido junto à Editora Batista Regular


Comentários

Uma resposta para “Pastores, psicologia e psicanálise”

  1. Avatar de Heloisa Lima
    Heloisa Lima

    É espantoso como muitos cristãos ainda têm uma visão tão preconceituosa da psicologia. Não entendo por que não podemos usar a psicologia como instrumento para a prática do aconselhamento. Conheço muitas pessoas que têm sido beneficiadas pelo aconselhamento cristão que busca a ajuda das ciências humanas.( e eu mesma me incluo nesse grupo). O texto abaixo reflete bem minha opinião. Infelizmente não conheço o autor, mas foi tirado de um site cristão. Só para exemplificar minha postura, meu cunhado, que é pastor a mais de 20 anos, e é considerado uma pessoa séria e fiel à doutrina, é formado em psicologia, e considera um instrumento para auxiliar no aconselhamento.

    ACONSELHAMENTO CRISTÃO: QUE HISTÓRIA É ESSA?
    Antes de mais nada, aconselhamento cristão não é aquele conselho sábio que pastores, amigos e parentes dão àqueles que os procuram em momentos de desespero e diante dos dilemas da vida.
    É uma prática metodológica que visa essencialmente ajudar pessoas que enfrentam situações de conflito a encontrar soluções para suas questões com base nas Escrituras e em seus ensinos, sem, contudo, desprezar o auxílio da ciência secular.
    O processo se dá através de um relacionamento terapêutico de curto a médio prazo com a pessoa envolvida, usando conceitos psicológicos e teológicos fundamentais extraídos das Sagradas Escrituras, visando o retorno ao equilíbrio e à saúde integral do indivíduo.

    Um fator que determina a diferenciação do Aconselhamento Cristão do chamado Aconselhamento Bíblico é o fato de o primeiro aceitar as ciências humanas, como a psicologia, e fazer uso delas como instrumento de ajuda para o processo de cura.
    No Aconselhamento Bíblico o processo terapêutico é centrado somente na interpretação e aplicação direta das Escrituras, partindo do pressuposto de que a Bíblia tem todas as respostas para os dilemas e questões humanas, não sendo necessário lançar mão das ciências seculares para buscar tais respostas. O grande defensor dessa prática é Jay Adams, que defende a idéia de que a influência da psicologia no aconselhamento é perniciosa e herética, e que os cristãos devem desconsiderá-la e buscar somente nas Escrituras as respostas para os questionamentos humanos.

    O fato de o Aconselhamento Cristão lançar mão de outros recursos não significa que ele rejeita a suficiência das Escrituras ou a preeminência de Deus nas práticas de aconselhamento. Ao contrário, ressalta-se a total suficiência das Escrituras naquilo que concerne à salvação do ser humano. A Bíblia é a Palavra de Deus e a única regra de fé e prática para aqueles que militam no Aconselhamento Cristão. Contudo, entendemos que Deus nos deu capacidades naturais que devem ser desenvolvidas. Buscamos nas Escrituras o embasamento teológico para nossa práxis e ao mesmo tempo investimos também nas ciências humanas para nos fornecer subsídios e nos auxiliar a aconselhar melhor as pessoas para que alcancem a cura de forma mais eficaz.

    O Aconselhamento Cristão reconhece que o pecado corrompeu a raça humana e que somente através de Jesus Cristo é possível alcançar a vida e o perdão para os pecados. O maior problema da raça humana é o pecado, e somente Jesus pode solucioná-lo. Contudo, há questões de ordem emocional e física que podem receber ajuda das ciências naturais. O conselheiro cristão crê que Deus capacitou homens e mulheres para exercerem o ministério de consolo e ajuda, buscando a sabedoria necessária para exercer tal função em sua Palavra e também em outras fontes de conhecimento desenvolvidas pelas ciências naturais.

    Nos países do hemisfério Norte, a profissão de conselheiro cristão é hoje realidade, e teólogos, assistentes sociais e psicólogos podem buscar uma habilitação clínica na área, com treinamento teórico e prático, para atender seus pacientes dentro de procedimentos regidos por uma ética profissional legislada pelo Estado.

    Características do aconselhamento cristão:

    1. Procura ajudar as pessoas a encontrar solução para os seus problemas baseada nas Escrituras e seus ensinos, sem desprezar o auxílio das ciências seculares.

    2. O objetivo básico da terapêutica do aconselhamento cristão é examinar a causalidade do conflito e, na sequência, promover o esclarecimento, ajudando a aconselhando a ter uma atitude mais realista consigo mesmo, com Deus e com os outros.

    3.Método de abordagem holístico, ou seja, a proposta de cura é baseada numa visão que se desenvolve a partir da idéia de interação de categorias teológicas e psicológicas. Busca-se o acesso às informações fornecidas pela psicologia e outras ciências e pela teologia como fontes de contribuição significativas.

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